terça-feira, 9 de janeiro de 2018

ivone, a manta dos 80's

terça-feira, 9 de janeiro de 2018
É o terceiro ano consecutivo que a primeira publicação é dedicada a uma manta. Não tem sido planeado, apenas tem acontecido. Mas também, qual a melhor forma de uma apaixonada por mantas de crochet começar o ano?

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Desde imaginá-la ao concretizá-la, foi um longo caminho. Passei por um período de indecisão no que respeitou ao acabamento. Estiquei-a dezenas de vezes na cama, no chão, mirei-a, fiz experiências, criei meios hexágonos, fiz franjas, pompons, imaginei barras, até que concluí que a primeira vontade que tivera fora a  única que me convencera. A primeira vez que decidi ter chegado o momento dos acabamentos foi quando me apercebi da assimetria das orlas e numa primeira impressão gostei daquilo, mas com o passar dos dias as dúvidas instalaram-se. Sabem que mais, quanto mais queremos fazer mais riscos corremos de castrar as ideias, portanto, o melhor que temos a fazer é deixar fluir e respirar, isto é, dar tempo. Foi o que fiz, esqueci-me dela e um dia voltei a olhá-la e quando regressei não tive dúvidas que era mesmo aquilo que queria. Queria-a diferente, foi o que saiu e os meus olhos gostam do que vêem.


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A ideia para a manta surgiu há pouco mais de um ano atrás, numa altura em que tive de fazer uma temporada em casa dos meus pais, por questões de saúde dos mesmos, fiquei por lá cerca de duas semanas. Um dia ao entrar na casa de jantar dos meus pais fixei-me na toalha de mesa feita pela minha mãe nos inícios dos anos 80. Olhei para aquela toalha tanta vez ao longo dos tempos, mas só naquele dia me passou a ideia pela cabeça, estes hexágonos eram capaz de dar uma manta.
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Esta é a toalha feita pela minha mãe, composta por dois hexágonos com desenhos diferentes, reproduzi os dois mas acabei por optar apenas pelo mais trabalhado. Quando o fiz estávamos a entrar no Outono e inspirei-me na estação para as cores escolhidas. Mais tarde apercebi-me que as cores que escolhi eram as que compunham a decoração da sala dos meus pais naqueles tempos, coisas da memória. Durante algum tempo chamei ao projecto manta de Outono, mas acabei por lhe dar outro nome, Ivone, que é o nome da minha mãe.




E agora deixem-me contar-vos o que é que esta manta representa para mim. Quando eu era miúda a minha mãe fazia muita renda, desde colchas para as camas, toalhas de mesa, conjuntos de naperons, rendas em lençóis,  picots nisto e naquilo, não parava, era de seguida, e fez renda até há uns anos atrás. Já não faz, não consegue, não se lembra sequer que um dia fez, a doença deu-lhe conta da memória... não é fácil lidar com esta realidade, apenas se aprende a seguir em frente. Voltemos àquela época. Lembro-me quando os meus pais resolveram fazer umas mudanças em casa e transformar a sala de jantar da altura (que ainda tinha ar de sala dos anos 60) numa sala comum, tão famosas nos inícios dos anos oitenta. As decorações dos 80´s eram do mais kitsch que possam imaginar, alcatifas, papel de parede com grandes ramagens de cores fortes e escuras, quadros de estampas nas paredes e tralha por todo o lado. Num estalar de dedos, as salas transformavam-se num verdadeiro labirinto de sofás, cadeiras, estantes, mesas e mesinhas, bibelots, tralha, tralha, tralha, precisamente o oposto das tendências dos dias de hoje. Mas sabem,  os olhos gostavam daquilo, naquela altura fazia sentido e o facto é que o comum dos mortais passou a ter acesso ao consumo, com todas as desvantagens que daí advieram, mas a sociedade da altura estava a viver um momento novo e não quis perdê-lo. Ora, mesa nova pedia toalha nova, com toda a certeza que foi o que a minha mãe pensou, e sem perder tempo, toca a dar ao dedo. Fez esta tal, com dezenas de pequenos hexágonos em linha Âncora nº6, côr beje. Na altura as rendas eram um tédio, todas bejes, cremes e brancas. Ah, esperem lá, os naperons para as cozinhas tinham cores fortes, sim malta, naperons nas cozinhas era mato, aliás, havia o hábito de espalhar naperons por todas as dependências da casa. Lembro-me de uns em tons de castanho e laranja, grannysquare, a condizer com as fórmicas dos armários, da mesa e cadeiras da cozinha e também com o papel autocolante que revestia os azulejos da cozinha, todo às flores pequeninas, castanhas, laranjas e brancas, a fazer lembrar os tecidos de algodão usados nos patchworks, eheheh muito bom, ah e lembro-me do vinil que forrava o chão da cozinha. Amiguinhos, nos 80's vivíamos no mundo do plástico! Mas regressemos à toalha, que foi executada hexágono a hexágono nas viagens de comboio entre Lisboa e Sintra, percurso diário feito pela minha mãe para ir trabalhar. Fazia cerca de seis horas de viagem diárias, autocarro para Cacilhas, barco para o Terreiro do Paço, autocarro para o Rossio, comboio para Sintra e autocarro para a empresa. Oito horas depois, o regresso. Era assim e os crochés entretinham-na naquelas repetidas viagens. Aquela peça antes de ser toalha de mesa, como muitas outras peças, foi companheira de viagem da minha mãe. Sei que é a toalha preferida dela e a mim faz-me lembrar os dias em que a minha mãe era uma senhora cheia de vida, expedita, uma verdadeira guerreira que se levantava de segunda a sexta às cinco da manhã para ir trabalhar todo o dia na secção de embalagens de um grande laboratório da altura, e regressava a casa às sete e meia da noite, sempre com um sorriso e um mimo para me dar. Entre muitas outras coisas, também me lembro do saquinho de papel do refeitório com uma carcaça lá dentro, a mala dela cheirava sempre a pão, um cheiro característico que guardo na memória e que ainda hoje me causa     conforto.
Conclusão, a Manta Ivone é inspirada nos inícios dos anos oitenta e é também uma espécie de tributo aos crochés da minha mãe. E ainda mais do que isso, é uma prova de como nos podemos inspirar nos designs antigos e reportá-los para os dias de hoje, dando-lhes uma nova visão e um novo lugar.



Até já
Ana Lado B


sábado, 30 de dezembro de 2017

Adeus 2017

sábado, 30 de dezembro de 2017

 fazbemaosolhos 2017
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Upa, mais um ano, isto é mesmo um foguete, passa rápido e bum, já está!
Foi um bom ano para o fazbemaosolhos, cheio de cor, como sempre, e de projectos que generosamente me retribuíram conforto e prazer ao criá-los e partilhá-los. Para mim, Ana, também foi um bom ano. É óbvio, há sempre mais para querer, há sempre aquilo que podíamos ter feito e não fizemos, aquilo que queríamos ter dito e não dissemos, mas seguem-se outros 365 dias para podermos fazer e dizer e ser... 2018 já está do lado de lá da porta à espera de poder entrar. Que venha, que é bem-vindo, e que nos traga os melhores dos nossos desejos.
BOM ANO!!!


Até já
Ana Lado B



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